Teatro e Marionetas de Mandrágora
Demos início.
12 jan 2026 . segunda-feiraDemos início à criação artística ‘A Oliveira Milenar’ num encontro que reuniu uma vasta equipa pluridisciplinar. Estiveram presentes criativos das áreas de direção artística e plástica, a escritora, os responsáveis pelo desenho de luz, música e construção de marionetas, além de intérpretes, manipuladores, figurinista, equipas de vídeo, fotografia, produção, logística e comunicação.
A partir do texto original 'Escavadoras', de Marta Pais Oliveira (obra vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís), a criação 'A Oliveira Milenar' nasce de um processo de aproximação emocional à cidade de Espinho. A estreia está marcada para maio de 2025, no Auditório de Espinho | Academia, integrando a programação do Mar~Marionetas - Festival Internacional de Marionetas de Espinho.
Numa terra onde uma casa se destrói — um lugar que poderia situar-se no Alentejo ou na Palestina — a dureza da palavra 'escavadoras' dá lugar à dimensão poética de 'A Oliveira Milenar'. O texto, nascido da escrita complexa de Marta Pais Oliveira, encontra na dramaturgia o alicerce para a criação artística que ocupa o palco. Aqui, a oliveira é o centro: um elemento cenográfico fundamental onde a palavra se transmuta em imagem e o tempo se espelha nas raízes da cenografia.
Esta dramaturgia reflete também uma viagem que atravessa a própria história da Companhia. A oliveira torna-se, assim, a alma de um lugar e de uma identidade; o símbolo de uma ou de muitas gentes.
Esta importante reunião, que juntou presencialmente os diversos universos criativos, marca assim um passo decisivo num projeto onde muitos dos artistas já desenvolveram trabalho marcado na dramaturgia e na planificação plástica.
A seguinte fase desta criação decorrerá ainda este mês na Noruega, com uma residência artística de várias semanas. Este momento, que contará com as direções artística e plástica, será o alicerce fundamental para a construção do espetáculo: uma viagem pela arte da marioneta onde as figuras se moldam plasticamente às exigências da narrativa.
Esta perspetiva que sempre se vai estruturando dentro da companhia, onde as marionetas, as técnicas, as opções artísticas se vão construindo e delineando sob a dramaturgia. A tentativa de colocar um texto em cena através das palavras, bem como através da linguagem visual e plástica, do objeto e do objeto em movimento como escolha fundamental da estética que tem sido sempre uma premissa do Teatro e Marionetas de Mandrágora.
A Oliveira Milenar : https://marionetasmandragora.pt/oliveiramilenar
Duas atrizes em palco.
12 jan 2026 . segunda-feiraDuas atrizes em palco, manipuladoras e marionetas, uma casa, uma árvore, raízes, personagens e objetos. A transformação, onde as palavras dão origem a objetos, que encerram em si dimensões poéticas, simbolismos. A estruturação de personagens que nascem das atrizes, mas que se partilham pelas mãos que as manipulam. O que vemos, quando vemos, o que vemos.
A narrativa do texto com uma ampla dimensão poética, metafórica, o que transporta alguém arrancado de um lugar. Momentos com diversas dimensões, onde o jogo de escalas é simbólico. O jogo das dimensões que nos permite fazer uma aproximação e um distanciamento proposto no mundo cénico e de estruturação criativa. Além das marionetas, a simbologia dos figurinos, de máscaras permite ao manipulador transpor diversas realidades.
Estes processos criativos convergem artistas que fazem parte da narrativa de um texto, que a dramaturgia transforma em linguagens convergentes, o tempo, a cor, a imagem, a figura, o som, a velocidade. Criar mundos que nos levam à ponderação, à análise, a uma viagem teatral que nos faz emergir num mundo que nos transporta para um processo sensorial cognitivo. Esta é uma experiência emocional, teatral, uma viagem, um processo cognitivo e estético.
As marionetas iniciam e terminam em distintas formas e dimensões, transpondo a imagem e a dimensão poética.
A linguagem deste espetáculo converge para uma opção criativa da direção artística, uma perfusão entre o relacionamento entre pessoas e entre dimensões sociais, onde não é de todo alheio uma profunda análise sobre o pensamento contemporâneo e a consciência da geopolítica do momento, à realidade social que nos circunda a um pensamento ativo e vincado pelo olhar sobre uma sociedade global que encontra conflitos e confrontos, evoluções que enfrentam dilemas de liberdade e de conflitos de uma sociedade disruptiva.
A Oliveira Milenar : https://marionetasmandragora.pt/oliveiramilenar
Arranca a programação da Casa Educativa da Marioneta.
6 jan 2026 . terça-feiraEste programa, que se irá desenvolver ao longo de 2026 com objetivos claros na área da mediação cultural, nasceu há diversos anos de uma parceria entre o Município de Gondomar e o Teatro e Marionetas de Mandrágora. O projeto visa a consolidação de um espaço de formação na área da marioneta com propósitos variados: pedagógicos, através da aprendizagem plástica e teatral; lúdicos, potenciando o jogo; artísticos, promovendo a exploração da manipulação e da construção; e sociais.
A iniciativa incentiva o trabalho coletivo e o ato familiar, promovendo a experiência artística conjunta e a criação de memórias no seio da família e do grupo, onde o pendor criativo se torna um eixo estrutural. Sendo um programa intergeracional, possui uma componente abrangente que se estende aos docentes: estes acorrem às formações em busca de novas ferramentas que possam auxiliar e enriquecer os seus próprios programas educativos.
Assim, no último sábado de cada mês, realizam-se as formações regulares. Ao longo do ano, somam-se ainda outras ações destinadas a adultos e profissionais das artes, que vêm complementar a base da programação que agora damos a conhecer.
Esperamos contar com a vossa companhia; a nossa está preparada!
Estejam sempre presentes!!!
1 jan 2026 . quinta-feiraFoi uma vertigem, uma grande equipa esta, já colocamos os nossos números de 2025 em análise. E calhou no nosso sapatinho o número 365, sim, 365 atividades realizadas, rimos do número, fizemos uma atividade por dia, todos os dias do ano, bom, não é bem assim, mas a associação é inevitável. Diz o gráfico que em 2025, visitamos 111 locais, 52 cidades, 17 distritos, participamos em 25 festivais e encontros nacionais e internacionais.
Foram 67580 espetadores, participantes, visitantes que estiveram presentes no nosso programa de cultura de 2025.
Destacamos os Festivais Mar~Marionetas, Festival Internacional de Marionetas em Espinho e o Ei! Encontro Internacional de Marionetas de Gondomar, a estreia de "à flor da pele", a colaboração na criação "Auto dos Zarolhos", o projeto comunidade e território "Bonecas de Constância", a criação comunitária Colecionadores de Memórias, Comdomínio e Margens, a apresentação pública do livro MARIONETAS - o acervo do Teatro e Marionetas de Mandrágora, a estreia da criação "O rapaz que morava à beira-mar", bem como o projeto comunitário desenvolvido em parceria com Braga 25, "semeada e os criadores de pássaros".
Foi um ano intenso de muito esforço e dedicação. A todos e todas Boas Festas.
A Criação
19 dez 2025 . sexta-feiraClara Ribeiro, faz nascer das suas memórias afetivas e territoriais uma criação que a une ao espaço físico real e às gentes que ao longo da sua vida intervieram na sua forma sensível de entender o mundo.
Como linguagem teatral, aliam-se as figuras, os símbolos, as marionetas, os objetos, que ao longo de diversos meses se foram desenhando em estreito diálogo na cena.
A dramaturgia, a que alicerça esta narrativa emocional, reflexo de um lugar e de uma sociedade, é também, no diálogo com os diferenciados públicos a quem se dirige, um modo de deslindar desejos, realidade distintivas de um modo de vida.
O teatro de marionetas, nesta sua forma de colocar o impossível e o simbólico, a metáfora e o simbolismo em cena, vai desvendando uma história que parte do visual para o interior sensível de cada indivíduo, o seu desejo, o seu receio, a dimensão transcendente da realidade.
Neste espetáculo é apresentada a simbiose entre ator e marioneta, tendo a presença de música ao vivo, onde o músico caminha também na manipulação dos objetos físicos e sonoros que narram esta criação.
O valor de um rio na economia, no desenhar de uma paisagem, no moldar das vidas, na sua dimensão lendária, mas também no respeito pelo poder criador e destruidor da natureza.
Entre o homem e a lenda conhecemos um pescador, o seu barco, os seus filhos, o rio, a riqueza que o rio dá e o seu infortúnio.
E neste jogo se falam de homens que se moldam à paisagem assim como a paisagem se molda a eles mesmos, fazendo desta a matéria da qual nascem as lendas.
O pescador d'Ouro : https://marionetasmandragora.pt/pescadordouro
A criação artística.
9 out 2025 . quinta-feiraO espetáculo joga com o quadro e coloca a pintura em espaço de jogo teatral, onde a tridimensionalidade e a sonoridade permitem colocar as figuras em ação, em movimento, destacando-as da tela, jogando com toda a simbologia que a arte do teatro das figuras e a arte da pintura permitem. Esta criação é uma revisitação à obra, onde artistas olham para a obra de um artista e observam o que ficou capturado através do seu espólio, presente em diversos museus como a Galeria Julio e o Museu Nacional Soares do Reis.
Esta é também uma viagem pelos territórios, pela cidade natal de Vila do Conde e pela cidade de Évora onde tomou contacto com a olaria tradicional de Estremoz.
A criação artística que aqui explanamos através da obra de Julio, pretende refletir sobre o seu valor premente de influência e convergência artística de uma época, mas sobretudo uma visão sobre a sociedade através do olhar de uma tela que pondera não somente sobre o que se observa, mas sobretudo sobre aquilo que se sente.
à flor da pele : https://marionetasmandragora.pt/aflordapele
DIA 4 -- Programa CriArte promovido pela APPACDM de Ponte de Lima.
24 jul 2025 . quinta-feiraComeçam-se a sentir os nervos e a expectativa da apresentação. Ela aproxima-se. Esse sentido de responsabilidade perante a apresentação de um trabalho conjunto preparado para ser apresentado exige a cada um de nós um sentido de responsabilidade. Afinal, aquelas pessoas investiram do seu tempo para fruírem culturalmente daquilo que prepararmos e que, na verdade, é um grande somatório de ideias e intenções de sinergias conjuntas, na agregação de indivíduos tão distintos e que aqui vêm encontrar o seu ponto comum.
A equipa é alargada, são vinte participantes. É por tal exigente em diferenciados níveis e intenções, visto que temos sempre de ter presente a criação coletiva, a ideia e a intenção da participação igualitária de cada um no todo. Aqui, neste trabalho, não há lugar para o eu, mas antes espaço para o nós e para o todos, o eu pertence ao coletivo criativo, se cada um der de si numa direção, será completamente focado o objetivo final uno.
Temos assim uma narrativa que se foi construindo, a valorização do território que nos é apresentado através de uma narradora, e que se nos chega ao olhar através do teatro de sombras. Transformou-se o som em gesto. Que som tem o toque de uns lábios?, que som tem o toque da minha mão na tua? E se esvaziarmos o corpo, e deixarmo-nos colorir vamos quedar-nos monocromáticos. Mas no gesto em movimento reside também a textura da génese da emoção e as marionetas povoam o espaço e ocupam os corpos, antes de serem aprisionadas no seu mundo, ou nos nossos mundos.
Quantos de nós habitamos pequenas prisões pessoais, quantos corpos são uma prisão, quantas mentes são uma clausura pessoal que nos impede de estar, no todo e com o todo. Mas a liberdade nasce nas nossas mãos, nesta ideia de ter domínio sobre o eu, o outro sobre a poética, do espaço e dos corpos em movimento.
Confesso que o trabalho de integrar som nas articulações de uma marioneta é algo que excedeu por completo as minhas expectativas, estou profundamente grata por esta associação que deixa marcas também no meu processo criativo. Não vim para ensinar, vim para partilhar o que sei fazer, vim para colocar em ação aquilo que me fascina, aquilo que me instiga, aquilo que me acicata e sobretudo vim para saborear a vida junto destas pessoas que tão bem me acolheram. Sei que me fizeram bem. A criação em comunidade faz bem, é importante e fundamental. Andamos demasiado arredados uns dos outros, devemos falar, dialogar, partilhar conhecimentos, partilhar experiencia. O tempo tem escorrido vertiginosamente, mas sabemos que experiências marcantes podem ser frutos do acaso, no entanto, têm de fazer parte da nossa busca e da nossa entrega.
Estamos prontos para enfrentar o último dia. Vamos apresentar esta criação num jardim belíssimo, um espaço cheio de poética narrativa. Será um dia intenso e de calor, um dia como são os dias de verão, mas sobretudo as marcas que gravamos na nossa linha da vida são as marcas fundamentais.
A comunidade é um bem que, mais do que intenção, é um bem comum, fundamental para o nosso equilíbrio. Em algum local encontraremos a cor do nosso mundo cinzento, em algum espaço de criação encontraremos o domínio sobre nós mesmos, aliando-nos aquém nos faz bem e a quem traça caminhos criativos comuns.
Pouco observamos o desenvolvimento das restantes áreas que estão patentes neste programa CriArte. Sinto, no entanto, que existe algo a nascer, algo que se perpetua, no esforço de uma empenhada equipa, cujo posicionamento de trabalho é sobretudo algo que nasce da força interior, que estou certa mover pequenas montanhas nesta região.
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DIA 3 -- Programa CriArte promovido pela APPACDM de Ponte de Lima.
23 jul 2025 . quarta-feiraNo desenvolvimento do programa começamos a entrar num processo de diálogos e desenvolvimentos individuais e coletivos, em torno das diversas estruturas que rodeiam as marionetas e na criação que estamos a preparar. Este é um momento para suscitar ideias, para diálogos, para encetar caminhos e para entendermos os possíveis diálogos entre os distintos participantes. Neste espaço existe sempre um caminho que se vai desbravando, que se vai desenhando. Este é um espaço de oportunidade de comunicação e de ouvirmos as ideias. Algumas irão com certeza cair por terra, mas faz parte do caminho de construção de uma narrativa este processo de construção conjunta. Além de nos fazer entender o caminho artístico que se pretende encetar nos leva também a unir sinergias, estreitar relações e sobretudo a usufruir de um momento tão único e intenso como é o de uma criação artística comum. Ter ideias conjuntas e aceitarmos a opinião e a ideia do outro, conversar e debater sem que isso nos perturbe interiormente é também um processo, convocar todos nestas opiniões é um processo laborioso e árduo.
Implementando uma estrutura onde se buscaram elementos de identificação do território de Ponte de Lima, cada pessoa construiu uma ou mais figuras para um teatro de sombras coletivo. Fizemos experiências com luz e sombra, movendo a sombra e movendo a luz, desfiando a sombra no espaço. Mas este foi um dos muitos elementos a explorar. Todos manipularam as marionetas, todos espalharam os tecidos pelo espaço, todos montaram a cenografia, todos colocaram os seus braços na sombra, todos manipularam a figura trabalhada musicalmente e que simboliza a liberdade das prisões e que remetem para esta ideia de condomínio sobre o qual pretendemos ter domínio.
A implementação do esquema do espetáculo é árdua e difícil. Exige concentração, esforço, uma intrínseca colaboração e foi nesse sentido que se começou a alinhavar uma estrutura que será a base do espetáculo. Integrar diferentes idades, distintas experiencias, distintos egos e distintas capacidades cognitivas é um verdadeiro desafio de gestão criativa, no entanto, uma certa humildade, e dedicação ao coletivo em detrimento do eu.
Alicerçar quem são estas figuras pálidas que se manipulam no espaço, feitas de matéria inerte, sustentadas por fios, quem são e que personalidade possuem é um esforço que exige tempo. A qualidade humana destas equipas, é um processo muito enriquecedor, existe aqui matéria humana despida de preconceitos, que entende a dificuldade e a deficiência, que sabe e possui profundos conhecimentos para lidar de distintos modos com a mesma enquanto cuidadores, mas também garante das muitas liberdades e excelentes capacidades que cada um dos indivíduos possui. É uma experiência que deveríamos acompanhar mais de perto e mais atentamente, para entendermos o extenso trabalho em prol da sociedade que estas equipas desenvolvem. Todo e qualquer ser humano deve ter acesso à fruição cultural.
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DIA 2 -- Poder ter o prazer de pertencer a este momento de experiência coletiva é sem dúvida um privilégio.
22 jul 2025 . terça-feiraEsta equipa já deu os primeiros passos para se conhecer e já pôde experimentar e explorar muitas das propostas que vão além da marioneta, nomeadamente através de jogos dramáticos. Neste segundo dia de exploração podemos lançar-nos em propostas um pouco mais disruptivas, que se integram na narrativa do todo. O aquecimento coletivo em círculo, bem como o olhar conjunto, integrando, interagindo com qualquer que seja o indivíduo que está à nossa frente leva-nos a uma posição de humildade, mas também reflexiva, sobre os objetivos artísticos de um projeto criativo com estas características.
Um primeiro momento onde posicionamos todos os participantes numa zona interior de conforto, questionando-nos sobre aquilo de que gostamos, os elementos naturais que nos encantam, lugar de espaços de afetos, de conforto, posicionando cada elemento nesse lugar positivista que o diálogo proporciona. Podemos então partir para um momento de serenidade, onde a exploração física e de objetos, se concretiza de forma bastante fluida.
Falamos do território, algumas das suas lendas, como o facto deste rio que percorre a região ser impregnado desta identidade. O esquecimento, a história foi partilhada coletivamente, bem como a lenda das unhas do diabo, também uma narrativa que nos relata uma história, que confronta o mal e a vilania, que nos deixa marcas no espaço físico. Lembrando-nos sempre que o mal está presente e que devemos ter um medo assente, para lidar com o mesmo. Através de papéis e cartões fomos construindo todo um território, que continua a ser preparado utilizando matérias e materiais luminosos, alguns complexos, outros uma grande simplicidade.
O teatro de sombras, uma das explorações realizadas, lida com a luz, o espaço e criação da sombra via um elemento físico.
Recorrendo a dispositivos cenográficos que tudo têm a ver com a dramaturgia do projeto, que entende a palavra condomínio ou a palavra com o domínio como uma interligação linguística que nos remete para distintas interpretações.
Assim assumimos que o estendal de roupa é um sinal visual de um espaço habitado com reminiscências dos terrenos rurais onde vemos ao longe os estendais de roupa, ou mesmo nas praias, ou junto dos rios onde os estendais sacodem livremente os tecidos. Também nos espaços urbanos, onde muitas vezes através daquela roupa tentamos descobrir a identidade da pessoa, que habita aquele espaço. Usando o estendal como espaço de tela, espaço transparência, espaço de ocultação, fizemos uma travessia de explorações. A luz desloca e a sombra desloca-se nesta relação entre os seres e o espaço e o território que habitam.
A estrutura preparada propõe a exploração da marioneta de fios. Trouxe comigo 10 marionetas de fios, de cruzeta alemã, para poderem ser manipuladas realizando exercícios individuais e em duplas, bem como exercícios coletivos de exploração sensorial e emocional. As figuras simplificadas das marionetas monocromáticas, têm uma simplicidade no movimento, resultando que o facto de não terem uma pintura profunda implica a leitura emocional de figura humanizada, manipulada pelos participantes.
Cada uma das figuras possui um espaço que a encerra. Quando colocado, este espaço, lado a lado e dispondo as marionetas frente ao público, dá-nos uma ideia de clausura, ponderando sobre esse espaço-condomínio exíguo e apertado, onde os habitantes se desconhecem uns dos outros, não interagem, habitando numa proximidade por vezes sufocante.
Com David Santos, que dirige a música deste projeto, deu-se início a uma exploração que teve hoje amplos desenvolvimentos numa das marionetas, idêntica às marionetas de fios apresentadas, mas cuja manipulação é uma manipulação direta que pode ser realizada por um a cinco manipuladores. Integrando em si pontos elétricos, durante o movimento da marioneta entram em contacto e emitem um som orgânico. Uma partitura musical fazendo com que tenhamos a impressão de que o movimento do corpo, dá origem a plasticidade sonora do universo emocional.
Foi sem dúvida um dia longo, de muitas explorações, intenso, de muita entrega e muita satisfação coletiva emocional. No final do dia acredito que temos aqui, como em muitos outros lugares da nossa vida, olhar e refletir sobre aquilo que decorreu, o que sucedeu, durante este dia, para que possamos ponderar de facto nas implicações que o nosso trabalho artístico tem nos participantes. Sejam pessoas com deficiência mental ou não, existe na ação física uma igualdade, uma seriedade, existe no indivíduo uma entrega que não tem qualquer diferenciação, no seu estado cognitivo e existem conclusões e ponderações que deveremos estar sempre a realizar, para podermos perceber quais os caminhos que a arte da marioneta pode apontar no desenvolvimento sensorial, no contributo para a fruição cultural e artística enquanto objeto de trabalho, jogo lúdico, pedagógico ou até mesmo terapêutico.
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DIA 1 -- Programa CriArte promovido pela APPACDM de Ponte de Lima.
21 jul 2025 . segunda-feiraCheguei a Ponte de Lima, fazer a viagem é só por si um processo de adaptação, de interiorização que nos vai dissolvendo no verde do território, embrenhando pelo espaço metafórico, imaginando a preparação necessária para nos encantarmos com mais um desafio.
Decidi trazer até este projeto um processo criativo que tenho construído ao longo do tempo e que pondera sobre questões sociais e do espaço do território, tentando aprender o que a arte da marioneta pode desafiar.
O espaço desta associação de apoio à pessoa com deficiência mental está repleto de identidade, dos seus membros, sente-se que existe um contágio emocional na apropriação do espaço físico, transformando-o em território sensível.
Uma equipa feita de artistas, dirige durante uma semana o programa que canalizará para uma apresentação pública, o trabalho desenvolvido, que sobretudo irá atravessar um amplo processo de diálogo com um vasto grupo, que integra uma diversidade de idades, bem como de competências. Rumamos, a uma sucessão de salas, cada uma com um desenvolvimento artístico específico. Durante o processo de trabalho ficamos a conhecer a equipa que participa e cada um revela as suas expectativas. A marioneta é o catalisador de curiosidade.
O trabalho desenvolvido pelo músico é algo que se transforma inusitadamente. Para aquele que desconhece o mundo da possibilidade sonora, a criação de um espaço de sons que nascem através do movimento é algo que surpreende devido a uma exploração sonora física que introduz no projeto uma componente diversa que aponta novos caminhos criativos.
Foram desenvolvidas as etapas naturais de um processo artístico que começam com a apresentação. Dar-se a conhecer ao outro, com a apresentação dos objetos e das ideias do trabalho a explorar, bem como uma exploração física gradual gerindo quer o universo concreto ou abstrato daquilo que cada um conhece. Explorar o espaço de diálogo atravessando etapa a etapa que nesta primeira fase se limitou a uma tarde de trabalho intenso.
Trabalhando com matérias como a marioneta de fios, o teatro de sombras e o jogo dramático com objetos, foi-se pautando uma gestão de inúmeros desafios e uma gestão de explorações, onde se embrenharam pequenas aproximações técnicas mas também emocionais, fruto do poder da metáfora da marioneta junto os participantes.
É muito interessante pensar que este espaço de trabalho intensivo é nada mais do que uma experiência artística, criativa que pretende provocar no participante a transformação, a fruição de todo o processo, uma apropriação de técnica e do conhecimento podendo assim explorar algo desconhecido com a ampla dimensão da arte do teatro da marioneta.
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